OSINT para Investigação Empresarial: Guia Completo com Técnicas e Ferramentas

Bruno Fraga14 min de leitura
OSINT para Investigação Empresarial: Guia Completo com Técnicas e Ferramentas

O Brasil registrou quase 7 milhões de tentativas de fraude apenas no primeiro semestre de 2025. São 29,5% a mais que o mesmo período do ano anterior — uma tentativa a cada 2,2 segundos, segundo a Serasa Experian.

Enquanto isso, 63% das empresas brasileiras identificaram pelo menos um caso de fraude nos últimos 12 meses, de acordo com a pesquisa Diagnóstico das Fraudes no Brasil da Grant Thornton. O dado mais alarmante: 47% dessas fraudes foram cometidas por pessoas em cargos de liderança, com acesso privilegiado a informações críticas.

É nesse cenário que a OSINT para investigação empresarial se torna não um luxo, mas uma necessidade operacional. Inteligência de fontes abertas permite que empresas investiguem parceiros, fornecedores e até seus próprios executivos usando dados públicos — de forma legal, ética e cada vez mais sofisticada com o auxílio de inteligência artificial.

Este guia técnico explica o que é OSINT, como aplicá-la em contextos corporativos brasileiros, quais ferramentas usar e, principalmente, onde estão os limites legais que você não pode cruzar.

O que é OSINT (Open Source Intelligence)?

OSINT — sigla para Open Source Intelligence ou Inteligência de Fontes Abertas — é a disciplina de coleta, análise e aplicação de informações obtidas exclusivamente de fontes públicas. Não envolve invasão de sistemas, interceptação de comunicações ou qualquer método ilegal. Tudo está disponível para quem sabe onde procurar.

A origem é militar. Agências de inteligência ao redor do mundo desenvolveram técnicas de OSINT durante a Guerra Fria para monitorar países adversários sem operações de campo arriscadas. Jornais, transmissões de rádio, registros comerciais, fotografias aéreas — tudo era fonte de inteligência.

Hoje, o conceito se expandiu drasticamente. O volume de dados públicos na internet é incomparavelmente maior do que em qualquer época da história. Redes sociais, registros governamentais digitalizados, bancos de dados empresariais, imagens de satélite atualizadas diariamente. O desafio não é mais encontrar informação — é filtrar o que é relevante.

OSINT não é hacking

Essa distinção é fundamental. Enquanto hackers exploram vulnerabilidades para acessar dados protegidos, analistas de OSINT trabalham exclusivamente com o que já está público. A linha divisória é clara:

OSINT (Legal) Hacking (Ilegal)
Consultar CNPJ na Receita Federal Invadir sistemas da empresa
Pesquisar processos judiciais públicos Interceptar comunicações
Analisar redes sociais abertas Acessar perfis privados sem autorização
Cruzar dados de bases públicas Comprar dados vazados na dark web
Usar Google Dorks para encontrar documentos indexados Explorar falhas de segurança para acessar servidores

O poder da OSINT está justamente nessa legalidade. Evidências coletadas por fontes abertas têm validade jurídica em processos — diferente de informações obtidas por meios ilícitos, que podem ser descartadas e ainda gerar responsabilização criminal para quem as coletou.

Por que empresas precisam de OSINT?

O cenário de fraudes corporativas no Brasil justifica por si só o investimento em inteligência investigativa. Mas os números contam apenas parte da história.

O custo real das fraudes corporativas

Segundo dados consolidados de 2024-2025:

  • R$ 15,7 bilhões em prejuízos potenciais apenas no primeiro trimestre de 2025, considerando se todas as tentativas de fraude identificadas pela Serasa Experian tivessem sido bem-sucedidas
  • 822% de crescimento em fraudes com deepfake corporativo entre 2024 e 2025, com prejuízos estimados em R$ 4,5 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025
  • 94% das fraudes são possibilitadas por falhas em controles internos
  • 59% dos casos só são descobertos após denúncia — os sistemas automatizados ainda são insuficientes

Esses números revelam uma realidade incômoda: a maioria das empresas não investiga proativamente. Espera a fraude acontecer, torce para alguém denunciar, e só então tenta conter o dano.

Riscos invisíveis em parceiros e fornecedores

A pesquisa da Grant Thornton também identificou que os departamentos mais vulneráveis são Compras, Tesouraria, Contas a Pagar, Faturamento e Estoque. São exatamente os setores que mais interagem com fornecedores externos.

Contratar um fornecedor sem investigação prévia é assumir riscos desnecessários:

  • Empresas de fachada criadas para desvio de recursos
  • Sócios com histórico de fraude em outros CNPJs
  • Processos trabalhistas sistemáticos indicando má gestão
  • Dívidas tributárias que podem gerar responsabilidade solidária
  • Conexões ocultas com concorrentes ou com a própria empresa (conflito de interesse)

A OSINT permite mapear esses riscos antes de assinar qualquer contrato. Uma consulta bem estruturada pode revelar o que a proposta comercial impecável esconde.

Compliance e a pressão regulatória

A Lei Anticorrupção (12.846/2013) responsabiliza empresas por atos de corrupção praticados por seus colaboradores ou terceiros que atuem em seu interesse. Não basta alegar desconhecimento. A empresa que não implementa mecanismos de integridade responde objetivamente.

Programas de compliance robustos incluem, por definição, processos de due diligence — e OSINT é a espinha dorsal de qualquer due diligence moderna. Não há como verificar integridade de fornecedores, parceiros ou candidatos a cargos estratégicos sem investigar suas informações públicas.

Aplicações do OSINT em Investigação Empresarial

O uso de inteligência de fontes abertas em contextos corporativos vai muito além da detecção de fraudes. As aplicações são amplas e cada vez mais sofisticadas.

Due Diligence em M&A e Investimentos

Fusões, aquisições e investimentos significativos exigem conhecimento profundo sobre a empresa-alvo. A due diligence tradicional analisa balanços, contratos e documentação formal. A OSINT complementa com uma camada de verificação que os documentos oficiais não revelam:

  • Reputação digital: o que clientes, ex-funcionários e parceiros dizem sobre a empresa em redes sociais, sites de reclamação e fóruns especializados
  • Estrutura societária real: identificar sócios ocultos, empresas interpostas e beneficiários finais através de cruzamento de bases públicas
  • Litígios em curso: processos judiciais, administrativos e arbitrais que podem representar passivos ocultos
  • Relacionamentos de risco: conexões com pessoas politicamente expostas (PEPs), empresas sancionadas ou indivíduos investigados

Uma aquisição mal investigada pode transformar uma oportunidade de crescimento em passivo milionário. O custo de uma OSINT aprofundada é insignificante comparado ao risco evitado.

Background Check de Executivos e Sócios

Contratar um C-level ou aceitar um novo sócio são decisões que impactam o futuro da empresa. Currículos mentem. Referências são manipuláveis. Entrevistas testam habilidades de apresentação, não integridade.

O background check via OSINT verifica:

  • Histórico profissional real: confirmação de cargos e períodos em empresas anteriores através de registros públicos e análise de redes profissionais
  • Processos judiciais: ações trabalhistas, cíveis, criminais e administrativas no nome do candidato
  • Participações societárias: outras empresas das quais participa ou participou, identificando conflitos de interesse ou padrões de comportamento
  • Situação cadastral e financeira: pendências com órgãos públicos, protestos, negativações
  • Exposição digital: publicações em redes sociais que possam indicar posturas incompatíveis com a cultura da empresa ou riscos reputacionais

O objetivo não é vigilantismo. É garantir que decisões estratégicas sejam tomadas com informação completa.

Análise de Fornecedores e Terceiros

Terceirização de serviços e compra de insumos criam dependências operacionais. Um fornecedor que falha compromete entregas. Um fornecedor fraudulento compromete a reputação.

A análise OSINT de fornecedores deve incluir:

  • Regularidade fiscal e trabalhista: certidões negativas, situação cadastral CNPJ, processos trabalhistas recorrentes
  • Capacidade operacional real: verificar se a estrutura declarada corresponde à realidade (sede física, funcionários, equipamentos)
  • Histórico de entregas: reclamações em plataformas públicas, processos por inadimplemento contratual
  • Conexões societárias: identificar se há relacionamento com funcionários da própria empresa (conflito de interesse)
  • Sanções e impedimentos: verificar em cadastros como CEIS, CNEP e listas de sanções internacionais

Empresas que operam sem essa verificação descobrem problemas quando já é tarde demais — quando o contrato está assinado, o adiantamento foi pago e a entrega não acontece.

Detecção de Fraudes Internas

Quando há suspeita de fraude, a investigação interna precisa de evidências. A OSINT fornece a base documental que sustenta (ou descarta) as suspeitas iniciais.

Cenário típico: uma denúncia anônima aponta que o gerente de compras tem relacionamento com um fornecedor específico. A investigação OSINT verifica:

  • Participação societária do gerente ou familiares em empresas que contratam com a organização
  • Padrão de vida incompatível com a renda declarada (patrimônio visível em redes sociais)
  • Conexões entre o gerente e representantes do fornecedor (redes sociais, eventos, histórico)
  • Histórico do fornecedor: quando foi criado, quem são os sócios, volume de negócios com a empresa

Essas informações públicas constroem o quadro probatório que fundamenta (ou não) medidas mais drásticas como auditorias detalhadas, afastamentos ou demissões por justa causa.

Monitoramento de Marca e Reputação

A reputação corporativa é construída ao longo de anos e destruída em horas. Monitorar o que se fala sobre a empresa em fontes abertas permite reação rápida a crises e identificação de ataques coordenados.

A OSINT de reputação monitora:

  • Menções em redes sociais: volume, sentimento, influenciadores envolvidos
  • Sites de reclamação: padrões de queixas, tempo de resposta, índices de resolução
  • Imprensa e blogs: cobertura jornalística, menções em veículos especializados
  • Fóruns e comunidades: discussões em grupos setoriais, opiniões de formadores de opinião
  • Ataques coordenados: identificar se críticas são orgânicas ou parte de campanha de difamação

Principais Ferramentas OSINT para Empresas

A prática de OSINT combina fontes específicas com ferramentas de pesquisa e análise. O ecossistema brasileiro oferece particularidades que exigem conhecimento local.

Fontes Abertas Brasileiras

O Brasil disponibiliza um volume considerável de informações públicas em bases governamentais:

Pessoas Jurídicas:

  • Receita Federal - CNPJ: situação cadastral, quadro societário, endereço, atividades econômicas
  • SINTEGRA: inscrição estadual e situação fiscal
  • Juntas Comerciais: atos constitutivos, alterações contratuais, integralização de capital
  • Portal da Transparência: contratos com governo federal, licitações, sanções administrativas

Processos Judiciais:

  • TJs estaduais e regionais federais: consulta processual por nome ou CNPJ
  • TST e TRTs: processos trabalhistas
  • STJ e STF: recursos em instâncias superiores
  • JusBrasil: agregador de jurisprudência e processos

Cadastros de Impedimentos:

  • CEIS: Cadastro de Empresas Inidôneas e Suspensas
  • CNEP: Cadastro Nacional de Empresas Punidas
  • CEPIM: Cadastro de Entidades Privadas Sem Fins Lucrativos Impedidas

Propriedade e Patrimônio:

  • Cartórios de Registro de Imóveis: matrículas de imóveis
  • DETRAN: consulta veicular (variável por estado)
  • Diários Oficiais: publicações de atos, licitações, editais

Ferramentas Gratuitas de Pesquisa

Além das fontes primárias, ferramentas de pesquisa avançada potencializam a coleta:

Google Dorks: operadores avançados de busca que filtram resultados específicos

  • site:dominio.com.br filetype:pdf - documentos PDF em domínio específico
  • "nome da empresa" filetype:xls - planilhas mencionando a empresa
  • inurl:admin OR inurl:login site:dominio.com.br - páginas administrativas expostas

Maltego: plataforma de análise de relacionamentos que mapeia conexões entre entidades (pessoas, empresas, domínios, IPs). Versão gratuita limitada, mas funcional para investigações pontuais.

Social Media Tools:

  • Social Searcher: monitoramento gratuito de menções em redes sociais
  • TweetDeck: análise de perfis e tendências no Twitter/X
  • LinkedIn Sales Navigator: análise de perfis profissionais (versão paga com mais recursos)

Imagens:

  • Google Images Reverse Search: identificar origem e contexto de imagens
  • TinEye: rastrear onde uma imagem aparece na internet
  • Yandex Images: motor de busca reversa com resultados diferentes do Google

O Repositório OSINT Brazuca

O projeto OSINT Brazuca reúne centenas de fontes e ferramentas adaptadas ao contexto brasileiro. É um ponto de partida obrigatório para quem quer estruturar capacidade de investigação focada em entidades nacionais.

O repositório organiza fontes por categoria:

  • Dados governamentais e consultas de CNPJ/CPF
  • Processos judiciais e administrativos
  • Cartórios e registros de propriedade
  • Veículos e habilitações
  • Redes sociais e telefonia
  • Domínios e infraestrutura digital

IA Aplicada a OSINT

A evolução mais significativa dos últimos anos é a aplicação de inteligência artificial à investigação de fontes abertas. O volume de dados públicos tornou inviável a análise puramente manual. IA permite:

  • Cruzamento automatizado: identificar conexões entre milhares de registros em segundos
  • Análise de padrões: detectar anomalias que indicam risco (empresas criadas recentemente com contratos vultosos, padrões de transações atípicos)
  • Processamento de linguagem natural: extrair insights de grandes volumes de texto (processos judiciais, publicações, documentos)
  • Reconhecimento de imagens e documentos: verificar autenticidade, identificar alterações

Plataformas como o Sherlocker integram essas capacidades em soluções especializadas para investigação empresarial, transformando o que seria semanas de análise manual em relatórios automatizados com cruzamento de dezenas de bases.

Como Fazer uma Investigação OSINT: Passo a Passo

Investigação sem método produz ruído, não inteligência. O framework abaixo estrutura o processo de forma replicável.

1. Definir Objetivo e Escopo

Antes de qualquer coleta, responder com precisão:

  • O que exatamente preciso descobrir? (situação financeira de fornecedor, histórico de executivo, evidências de fraude)
  • Qual o contexto da investigação? (due diligence pré-contratual, investigação interna, monitoramento contínuo)
  • Quais são os limites legais e éticos? (dados que não podem ser acessados, métodos proibidos)
  • Qual o prazo e recursos disponíveis? (profundidade da análise depende de tempo e equipe)

Escopo mal definido gera investigação incompleta ou desperdício de recursos em informações irrelevantes.

2. Mapear Fontes Relevantes

Com o objetivo claro, identificar quais bases de dados e fontes podem conter as informações necessárias:

  • Fontes primárias: registros governamentais oficiais
  • Fontes secundárias: agregadores, portais de notícias, redes sociais
  • Fontes especializadas: bases setoriais, cadastros de classe profissional

Criar uma lista de fontes antes de iniciar a coleta evita perda de tempo com buscas aleatórias.

3. Coletar Dados Sistematicamente

A coleta deve ser documentada desde o início:

  • Registrar data/hora de cada consulta
  • Salvar capturas de tela ou cópias de páginas (conteúdo web pode mudar ou ser removido)
  • Organizar achados por categoria e relevância
  • Marcar inconsistências ou informações que requerem verificação adicional

Ferramentas de web scraping e automação aceleram a coleta, mas exigem cuidado com limites legais de acesso e termos de uso das plataformas.

4. Cruzar e Analisar Informações

Dados brutos viram inteligência quando cruzados e contextualizados:

  • Cruzamento de bases: o mesmo CPF aparece em quais empresas? Quais processos mencionam determinado CNPJ?
  • Análise temporal: quando eventos aconteceram? Há correlação entre datas (abertura de empresa e início de contrato com a organização)?
  • Análise relacional: quem se relaciona com quem? Sócios em comum, endereços compartilhados, representantes que se repetem
  • Verificação de consistência: informações batem entre si ou há contradições?

Esta é a etapa que exige experiência analítica. Ferramentas ajudam, mas o olhar treinado identifica nuances que algoritmos perdem.

5. Validar e Documentar Resultados

Antes de concluir, cada achado relevante deve ser:

  • Verificado em fonte primária: informação de segunda mão precisa ser confirmada na origem
  • Contextualizado: um processo judicial pode indicar risco ou ser questão rotineira de mercado
  • Documentado com evidência: relatório final deve incluir fontes, datas de acesso e metodologia

Conclusões precipitadas geram decisões erradas. Investigação séria distingue fatos comprovados de hipóteses que requerem aprofundamento.

OSINT e Limites Legais no Brasil

A fronteira entre investigação legítima e violação de direitos é definida pela legislação — especialmente pela LGPD e pelo Código Penal.

O Princípio Fundamental

Tudo que é público pode ser coletado e analisado. Essa é a premissa central. Porém, "público" tem definição específica: informações disponibilizadas pelo próprio titular, publicadas por obrigação legal ou acessíveis em bases governamentais sem restrição de acesso.

O que não é público, mesmo que tecnicamente acessível:

  • Dados vazados (adquirir ou utilizar dados de vazamentos é crime)
  • Informações de sistemas protegidos por senha, mesmo que a senha seja fraca
  • Comunicações privadas, mesmo que arquivadas em servidor mal configurado
  • Dados de perfis de redes sociais configurados como privados

LGPD e Investigações Corporativas

A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) estabelece bases legais para tratamento de dados pessoais. Em investigações corporativas, as bases mais relevantes são:

Legítimo interesse do controlador (Art. 7º, IX): permite tratamento de dados para finalidades legítimas como proteção patrimonial, prevenção a fraudes e segurança. É a base mais utilizada em investigações internas, conforme orientação de especialistas em compliance.

Exercício regular de direitos em processo (Art. 7º, VI): fundamenta coleta de dados para instrução de processos judiciais, administrativos ou arbitrais.

Cumprimento de obrigação legal (Art. 7º, II): quando investigação é exigida por lei ou regulador (como verificações de PLD/FT em instituições financeiras).

Para utilizar o legítimo interesse, a empresa deve:

  1. Demonstrar que o interesse é legítimo e específico
  2. Coletar apenas dados necessários e proporcionais
  3. Garantir transparência ao titular (quando não houver risco de comprometer a investigação)
  4. Documentar a análise de proporcionalidade

Limites Práticos

Mesmo com base legal adequada, há condutas que configuram ilícito:

  • Invasão de dispositivo informático (Art. 154-A do Código Penal): acessar sistema sem autorização
  • Interceptação de comunicações (Lei 9.296/96): escutas sem ordem judicial
  • Violação de sigilo (Art. 154 do Código Penal): revelar segredo obtido em razão de função
  • Assédio e perseguição (Art. 147-A do Código Penal): monitoramento obsessivo que configure stalking

A regra prática: se você precisaria de uma ordem judicial para acessar a informação, ela não é pública e não pode ser objeto de OSINT.

Validade Jurídica de Provas OSINT

Evidências coletadas por fontes abertas têm plena validade em processos judiciais, desde que:

  • A coleta não tenha envolvido meios ilícitos
  • A cadeia de custódia esteja documentada (quando, onde e como foi coletado)
  • A autenticidade possa ser verificada (capturas de tela, hashes de arquivos, atas notariais quando necessário)

Tribunais brasileiros já aceitam regularmente provas de redes sociais, consultas a bases públicas e cruzamentos de dados em processos trabalhistas, cíveis e criminais.

Casos de Uso: OSINT na Prática

Case 1: Due Diligence em Aquisição Frustrada

Uma empresa do setor de logística negociava a aquisição de um concorrente regional. Os números apresentados eram atrativos: frota própria, contratos de longo prazo com grandes varejistas, crescimento consistente.

A investigação OSINT revelou:

  • Frota: consulta ao DETRAN mostrou que 40% dos veículos declarados como próprios estavam registrados em nome de terceiros ou financiados com alienação fiduciária não mencionada
  • Contratos: análise de processos judiciais identificou três ações de cobrança movidas por clientes supostamente "fiéis" — os contratos de longo prazo não existiam mais
  • Sócios: o sócio-minoritário tinha participação em uma transportadora que havia falido dois anos antes com R$ 8 milhões em dívidas trabalhistas. Parte dessa dívida havia sido redirecionada para a empresa-alvo

A aquisição foi cancelada. O custo da investigação foi de R$ 25 mil. O prejuízo evitado: estimado em R$ 4 milhões em passivos ocultos.

Case 2: Fraude de Fornecedor em Setor Público

Uma autarquia federal identificou, via denúncia anônima, que um fornecedor de serviços de TI poderia ter relação com funcionários do órgão.

A investigação OSINT mapeou:

  • Estrutura societária: a empresa havia sido constituída 8 meses antes do primeiro contrato. O capital social de R$ 10 mil contrastava com contratos que somavam R$ 2,3 milhões em dois anos
  • Endereço: o endereço da sede era um escritório virtual compartilhado. A consulta ao Google Street View mostrava uma recepção de coworking
  • Conexões: análise de redes sociais identificou que o sócio-administrador e um servidor do setor de contratos eram colegas de faculdade e frequentemente marcados em fotos juntas. O LinkedIn mostrava que haviam trabalhado juntos em empresa anterior

O caso foi encaminhado à Corregedoria e ao MPF. O servidor foi afastado e responde a processo administrativo disciplinar.

Case 3: Background Check de CFO

Uma startup em processo de captação recebeu currículo de candidato a CFO com passagens impressionantes por multinacionais. A experiência declarada incluía reestruturação financeira de operação brasileira de empresa do S&P 500.

A verificação OSINT encontrou:

  • Passagem confirmada: a pessoa realmente trabalhou na multinacional declarada, mas como analista sênior — não como controller conforme afirmado
  • Histórico processual: duas ações de execução fiscal em seu nome por dívidas de empresas das quais foi sócio
  • Redes sociais: publicações com teor conspiratório e posicionamentos que poderiam gerar risco reputacional para a startup em fase de captação com investidores institucionais

A candidatura foi recusada. A startup evitou contratar um executivo que inflou credenciais e tinha passado financeiro problemático.

Como o Sherlocker Potencializa o OSINT

Investigação empresarial eficiente exige escala. Análise manual de dezenas de bases, cruzamento de centenas de registros, monitoramento contínuo de milhares de entidades — tudo isso é humanamente impossível com equipes convencionais.

O Sherlocker resolve essa equação combinando:

IA especializada em investigação: modelos treinados especificamente para contexto brasileiro, reconhecendo padrões de risco em estruturas societárias, identificando conexões ocultas e sinalizando anomalias que analistas humanos demorariam semanas para detectar.

Cruzamento automatizado de bases: integração com dezenas de fontes públicas em uma única interface. Consulta um CNPJ e recebe, em segundos, situação cadastral, quadro societário, processos judiciais, sanções administrativas, mídia negativa e análise de risco consolidada.

Relatórios para compliance: documentação estruturada que atende requisitos de programas de integridade, due diligence de terceiros e verificações regulatórias. Rastreabilidade completa de fontes e metodologia.

Monitoramento contínuo: alertas automáticos quando há mudança relevante em entidades monitoradas — novo processo judicial, alteração societária, inclusão em cadastro de sanções.

Para empresas que precisam ir além da consulta pontual e incorporar inteligência de fontes abertas em seus processos de gestão de riscos, a automação deixou de ser opcional.

Conclusão

O Brasil registra uma tentativa de fraude a cada 2,2 segundos. Mais da metade das empresas foi vítima de algum tipo de fraude em 2024. Os números não deixam espaço para ingenuidade: empresas que não investigam são empresas vulneráveis.

OSINT para investigação empresarial não é espionagem. É uso inteligente de informações públicas para tomar decisões melhores. Verificar antes de contratar. Investigar antes de adquirir. Monitorar continuamente parceiros e terceiros. Reagir rapidamente quando sinais de alerta aparecem.

O framework está estabelecido: fontes abertas brasileiras são abundantes, ferramentas gratuitas e pagas estão disponíveis, limites legais são claros. O que diferencia empresas maduras das vulneráveis é a decisão de implementar.

Se sua organização ainda não tem capacidade estruturada de investigação de fontes abertas, o momento de começar é agora — antes que a próxima fraude aconteça e você descubra que poderia ter sido evitada.


FAQ: Perguntas Frequentes sobre OSINT para Empresas

O que significa OSINT?

OSINT é a sigla para Open Source Intelligence ou Inteligência de Fontes Abertas. Refere-se à coleta, análise e aplicação de informações obtidas exclusivamente de fontes públicas — registros governamentais, redes sociais, publicações na imprensa, bases de dados abertos e qualquer informação acessível sem necessidade de invasão de sistemas ou métodos ilegais.

Sim, a prática de OSINT é legal no Brasil desde que se limite a fontes genuinamente públicas. A LGPD permite o tratamento de dados tornados públicos pelo titular ou disponíveis em bases governamentais. O que é ilegal: invadir sistemas, acessar dados vazados, interceptar comunicações ou acessar perfis privados sem autorização.

Quais são as principais ferramentas OSINT para investigação empresarial?

As principais ferramentas incluem: bases governamentais (Receita Federal, Juntas Comerciais, Tribunais), repositórios especializados como o OSINT Brazuca, ferramentas de pesquisa avançada (Google Dorks, Maltego), plataformas de monitoramento de redes sociais e soluções com IA especializada como o Sherlocker para cruzamento automatizado de dados.

Qual a diferença entre OSINT e espionagem?

OSINT utiliza exclusivamente informações públicas e métodos legais. Espionagem envolve acesso a informações protegidas através de meios ilícitos — invasão de sistemas, interceptação de comunicações, infiltração, suborno. Evidências de OSINT têm validade jurídica; evidências de espionagem podem ser descartadas e gerar responsabilização criminal.

Como usar OSINT em due diligence?

Em processos de due diligence, OSINT permite verificar: estrutura societária real e beneficiários finais, histórico de processos judiciais e sanções, situação fiscal e trabalhista, reputação digital, conexões de risco com PEPs ou empresas sancionadas, e consistência entre informações declaradas e realidade verificável. Plataformas especializadas automatizam esse cruzamento de bases.

OSINT pode ser usada como prova judicial?

Sim. Evidências coletadas de fontes abertas são aceitas em processos judiciais brasileiros, desde que a coleta tenha sido lícita, a cadeia de custódia esteja documentada e a autenticidade possa ser verificada. Recomenda-se registrar data/hora de coleta, salvar capturas de tela e, em casos relevantes, utilizar ata notarial para conferir fé pública ao conteúdo.

Compartilhar

Escrito por

Bruno Fraga

Experimente o Sherlocker

Automatize suas investigacoes com IA. Teste gratis por 5 dias.

Comecar Gratis